A vida acontece e desliza corrente
Com formas tangíveis que roça o vácuo
Tem curvas estéticas nas horas arcaicas
Para na alma esguia transcoar o tempo
O homem é abstrato na dor sem afeto
Na infância clara descola o sonho
Deixando a fome pobre no vazio mudo
Do estômago reduzido em pouco espaço
Abstrata é a vida que rola em gotas
Na face obscura dos que fazem o mundo
Quando roubam a consciência de quem vive
Na prática rude de um lago escuro
Salgada é a lágrima que escorre e chora
No vago espaço sem o sal que reza
Pela paz da guerra que arde e acende
Na luz abstrata que não fornece as cores
O tempo cala a esperança quente da tarde
Inerente ao silêncio realista dos pensantes
Bem no auge da força bruta que compele
E gesta uma luz no formato claro da água
Que brilha em forma de vida ou não
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Tudo acontece...
Tudo acontece num dia de chuva rala
Que molha a terra e poupa o mar
Num suspiro cinza aparece uma sombra
Devota de um santo incapaz e sem currículo
Um louco entende que a sombra é fugaz
E devolve ao santo uma revolta em prantos
A sombra é uma cópia chapada da alma
Marcada pelo delírio da prece que perdoa
Perdoa o louco que tem um eu partido
Vive uma inocente realidade que transgride
Mora na parte cinza de um contexto nu
Amparado pelas folhas mortas do tempo
Uma ponta da vida agrega o louco e a sombra
Tudo faz parte de um prenúncio irreal
Ansiosa a sombra se afasta da luz
O louco segue em silêncio por um espelho escuro
E o tempo dispersa a dor em sombra
Dor de quem sabe sofrer mais dispensa viver
domingo, 15 de maio de 2011
Troco e destroco
Troco e destroco as vidas achadas
No lucro das palavras abertas
Que escorrem na parede rala da alma
Para implodir o pranto num fio de lágrima
Em pleno silêncio destroco o fado cantado
E danço sozinha para alargar as estrias
Que rabiscam a pele na retina da luz
Deixando a minha consciência em tráfego
Troco o dia pela noite e escrevo no céu escuro
Sou contra tudo que aparece no espelho inverso
Arrepio-me no silêncio da visão nua descrita
E destroco todos os desgostos que atravessam a rua
Também troco e destroco a vertigem da moldura
Sobre todos os prantos caídos do meu signo
Jogo no passado a energia que desfigura a vitrine
Para adestrar o meu sentido estático em restos
E no final do dia destroco a noite em vida
Para vibrar e transformar tudo em feições
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